Nos deram o espelho e vimos um mundo doente



"Nos deram espelhos e vimos um mundo doente" deveria ser de fácil compreensão, mas o ego da maioria de nós tenta, a todo custo, evitar refletir sobre a nossa responsabilidade pessoal na interpretação do que acontece ao nosso redor. 




É fácil constatar, em todos os momentos da vida, que "quando Pedro me fala de Paulo sei mais de Pedro do que de Paulo.



O duro é admitir que, muitas vezes, o Pedro somos nós, que tudo o que nos incomoda profundamente no outro está em nós, que projetamos as nossas piores sombras nos que nos contrariam, que muitas e muitas vezes o mundo externo é um espelho do que somos de verdade e não do que gostaríamos de ser ou do que nos esforçamos para aparentar.



Uma das dicas de autoajuda barata mais perigosa é: "Afaste-se de pessoas de energia negativa.


Primeiro, porque ilude o "aconselhado", fazendo com que ele acredite que os seus conflitos íntimos foram causados pelas "más" companhias, pelos "invejosos", pelos "xucros", pelos "vilões". 


E segundo, porque alimenta a mentira de que somos mais especiais do que somos, uma ilusão tão poderosa, que envaidece até os anjos.



Todo "171" sabe disso: a receita mais rápida para destruir uma pessoa, qualquer pessoa, é fazer ela acreditar que é mais importante e mais esperta do que é. Aí fica facinho cair no golpe do bilhete premiado... 



Talvez a vida seja caótica demais para ser suportada com toda a sua lucidez... quem aguenta assumir que simplesmente não tem o controle de cada segundo inesperado que nos espreita no amanhã?

Quem não conhece a metáfora do copo, que divide o ser humano em dois tipos: os pessimistas que olham para o copo que tem líquido até a metade e dizem que está "meio vazio" e os otimistas, que olham para o copo com líquido até a metade e dizem que está "meio cheio".



Essa historinha confortável está presente em inúmeros livros, palestras, piadas e, até mesmo, letras de música. Todo mundo gosta do que simplifica personalidades complexas, não é mesmo? Por que alguém ia tentar fazer a experiência do copo de uma forma diferente, colocando tipos menos nobres de líquido nele? 




Quem diz que um copo com vômito e água de esgoto até a metade está "meio cheio" é otimista, quem diz que um copo com fezes até a metade está "meio vazio" é pessimista. A vida é simples assim mesmo, coleguinha, pode confiar...   



Quem precisa desesperadamente rotular as pessoas tem problemas profundos em admitir que não se pode ler pensamentos e prevenir decepções. 


Pessoas são selvagens



Não existe ninguém, mas ninguém mesmo, que seja previsível. A gente finge que sabe o que esperar dos rotulados, porque a vida fica mais suportável quando é catalogada. 



Branca de Neve é boa. Madrasta é má. O maniqueísmo é medíocre, mas dá um alívio!!!!




Mas quem, quem, QUEM consegue viver sem julgar???? 



Quem, mesmo sabendo que toda crítica é uma confissão e que ao apontar um dedo para os outros, tem outros três dedos, da sua própria mão, voltados para você mesmo, consegue não rotular?


Observe o jeito que as pessoas brigam: Fascistas são sempre os outros. Golpistas são sempre os outros. Errados são sempre os outros. Ignorantes são sempre os outros. Mal resolvidos são sempre os outros. Recalcados são sempre os outros. Preconceituosos são sempre os outros. Fracassados são sempre os outros. Invejosos são sempre os outros. 

Monstros são sempre os outros.



Ninguém nunca admite que é o
 "vilão" da narrativa do próximo. Porque a gente é o espermatozoide que venceu a corrida, não é mesmo? Somos campeões em tudo, somos vencedores mesmo antes de haver um antes, somos iluminados, somos sagrados, somos especiais, somos ricos de razão.


Tem gente assassinada por nada na guerra da Síria, tem gente assassinada por nada na esquina de casa. Tem gente morrendo de fome na África. Tem gente morrendo de fome na minha rua. 



A vida é difícil. Não há meritocracia, não há lógica. Coisas terríveis acontecem com crianças... coisas maravilhosas acontecem com psicopatas... Pessoas incríveis morrem de asma aos 30 anos de idade... Pessoas estúpidas ficam inteiras até os 100... 



Ninguém entende nada e todos gritam com todas as forças que são entendedores do universo inteiro, que conhecem o mundo como a palma das próprias mãos... 




Eu não sei quantas linhas tenho nas mãos, não sei porque existem linhas nas mãos, não sei porque tem gente que perde as mãos por causa das bombas das guerras inúteis, não sei porque as minhas mãos existem, não sei se as minhas mãos existem mesmo ou fui eu que as inventei, não sei  quem desenhou essas linhas infinitas rabiscadas na palma da minha mão direita, diferentes das linhas costuradas na palma da minha mão esquerda... (foi Deus? Fui eu? Foi o nada?) Não sei se as mãos que pegam em armas e atiram em crianças já estão todas mortas. Não sei se as minhas próprias mãos ainda estão vivas. 


É que as coisas (e as mãos) são como são e não como deveriam. Ou, pior, muito pior, são como as vemos e não como realmente são. Porque talvez o nosso destino seja deturpar tudo até o fim... ver só o que queremos, só o que podemos, só o que inventamos...



Enquanto desmerecemos as crenças, as ideologias, a nacionalidade, o sotaque, a etnia, a razão, as dores e as verdades alheias, nos esquecemos de olhar para a nossa própria loucura, a que nos devora por dentro silenciosamente. 




(Marcela Zaidan)


Fonte: http://omeuindizivel.blogspot.com/

   

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